Com o plantio autorizado, atenção ao clima deve ir além do volume de chuva: distribuição das precipitações, veranicos e altas temperaturas podem afetar germinação e desenvolvimento inicial das lavouras.
O produtor de soja de Goiás já pode colocar as máquinas em campo para dar início à safra 2026/27. Mas, neste ano, mais do que acompanhar a abertura do calendário, será preciso acompanhar de perto o comportamento do clima.
A safra começa sob a influência de um El Niño de forte intensidade, fenômeno que, segundo as projeções mais recentes, deve permanecer atuando durante a primavera e o verão. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte nesse período.
Para a agricultura goiana, entretanto, a principal preocupação não está necessariamente em uma redução expressiva do volume total de chuva, mas na forma como essa chuva será distribuída ao longo do tempo.
É justamente esse comportamento que pode transformar uma boa chuva em um cenário de estresse para a lavoura. De acordo com o professor da Universidade de Rio Verde e agroclimatologista Gilmar Oliveira Santos, historicamente, anos de El Niño podem apresentar, na região, volumes de precipitação próximos da média histórica. O problema está na irregularidade. “Pode acontecer uma chuva de 30, 40 ou até 50 milímetros e, depois, vir um período de aproximadamente dez dias sem precipitação”, explica.
Esse intervalo é o chamado veranico e pode representar um dos principais pontos de atenção para as lavouras implantadas no início da temporada.
O cenário é especialmente delicado quando a chuva ocorre logo após a semeadura. Se houver umidade suficiente para iniciar a germinação, mas ela não for mantida nos dias seguintes, a emergência pode ocorrer de maneira irregular. “Uma das preocupações para este ano é justamente a desuniformidade de emergência das plantas”, alerta o especialista, que vai além, explica que o resultado pode ser uma lavoura com plantas em diferentes estágios de desenvolvimento, o que interfere no estabelecimento inicial da cultura e pode aumentar a vulnerabilidade diante de novos períodos de estiagem.
Segundo o agroclimatologista, plantar não significa apenas esperar pela primeira chuva e essa não deve ser a única informação considerada na tomada de decisão. “A pergunta não é apenas “quanto vai chover?”, mas “como essa chuva vai se comportar nos próximos dias?”
O próprio INMET destaca que, em anos de El Niño, aumentam as chances de ocorrência de veranicos durante a primavera e o início do verão em áreas do Centro-Oeste. Por isso, o acompanhamento das previsões meteorológicas precisa fazer parte da rotina do produtor durante a implantação da safra.
Calor e solo exposto aumentam o estresse
Outro efeito que merece atenção é a combinação entre ausência de chuva, baixa umidade relativa do ar e temperaturas elevadas.
Quando o solo está protegido por uma boa camada de palhada, essa cobertura ajuda a reduzir a exposição direta à radiação solar e contribui para a conservação da umidade.
Já em áreas com pouco resíduo vegetal ou onde houve ocorrência de queimadas, o solo pode atingir temperaturas mais elevadas, criando um ambiente ainda mais desfavorável para a cultura recém-semeada.
Para a soja, esse cenário pode aumentar o estresse hídrico e comprometer etapas importantes do estabelecimento da lavoura. “Quando fica sem chover, a umidade relativa do ar reduz de forma significativa e a temperatura aumenta. Em solos sem palhada, ou onde houve fogo, a cultura fica exposta a uma condição de temperatura do solo muito mais elevada”, explica Gilmar.
Diante de um cenário de maior irregularidade, o planejamento ganha ainda mais importância. Entre as medidas apontadas pelo especialista estão o uso de cultivares adaptadas à região, o escalonamento da semeadura e a manutenção da palhada, além do acompanhamento constante das condições meteorológicas.
A orientação também vale para quem possui estação meteorológica na propriedade. Segundo Gilmar, os dados locais permitem ao produtor conhecer melhor o comportamento histórico do clima na área e acompanhar previsões mais específicas para sua região.
Para o produtor, a mensagem neste início de safra é simples: não basta comemorar a primeira chuva. É preciso acompanhar a sequência.
Uma precipitação pode ser suficiente para iniciar a implantação da lavoura, mas a continuidade da umidade nos dias seguintes será determinante para a emergência uniforme das plantas e para o estabelecimento inicial da cultura.